Ela mexia no cabelo, dava risadas falsamente tímidas, escrevia apertado na folha... Cada comentário do professor virava uma setinha torta e um mini texto em azul, rabiscado em algum canto de sua cópia do poema. Mal terminava de escrever e mostrava para ele as palavrinhas apertadas que coloriam o texto. Ele ria-se de sua meninice, de suas cores, de sua letrinha miúda.
Ele a ouvia: respirava pausadamente enquanto mascava chiclete em quase silêncio. Era uma graça com sabor tutti fruti que, pelo além óculos, o observava fora de foco. Via, na verdade, uma nuca branca, contornada suavemente por uma blusa cor de rosa e um vasto cabelo curto. Ela não o via mascando chiclete e também não podia ouvir sua respiração... mas ela podia vê-lo. Limitava-se, então, a observar sua boca repetindo baixinho tudo que o professor dizia antes de anotar de caneta preta no papel.
Ele fingia não saber era observado. Ela fingia não observar. Mas tudo era motivo para contato visual, risos, toques, tapinhas adolescentes. Tudo ele aproveitava só para olhar pra trás e trocar olhares com aqueles olhos dela. E todos aqueles olhos de janela fingiam-se surpresos. Pelos óculos discretos, ele percebia toda a uma vida escondida atrás da transparência do óculos de armação colorida que apoiava-se preguiçosamente sobre o nariz desenhado do rosto da colega de sala.
Ela parecia tão menina e carregava um olhar de séculos de amor que ele não conseguia entender. Ele parecia tão apaixonado que tinha toda ela nos olhos. E ela se via nos cerimoniosos olhos castanhos dele. Ele era tão sério que ela ria, tinha que rir. Ela era tão menina que ele se sentia bobo, pego de surpresa, desprevenido. E entre uma e outra distração, esqueciam-se de sua posição de espectadores um do outro, davam descanso ao cupido e ouviam alguns trechos da aula...
Alguma coisa de Shakespeare era dita...
Mas Shakespeare podia esperar.
(em 14 setembro de 2007)
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Um comentário:
=D
Bonito esse texto!
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