domingo, 16 de maio de 2010

nem ligo...

O abraço dele, de corpo inteiro, a mania de abraçar encaixando o queixo no meu pescoço, a aspereza da barba que fazia cócegas... O sorriso, o jeito de me dar a mão quando a multidão se aproximava.

Os braços dele, em volta de mim. Brincando no meu ombro, com a minha cintura, me puxando pelas ruas ou só mais pra perto, pra falar mal de alguém. O jeito cúmplice dum olhar por fora dos óculos....

Aquela mania eterna de rir de mim e não comigo, de fazer graça e pedir desculpa com um beijo mal dado em algum ponto estranho do meu rosto enquanto faz carinho na minha nuca. Seus assuntos, seus gostos, suas manhas... tudo em você me faz um bem amargo.

Um bem que não era pra ser tão bom.

Mas desde a primeira vez que eu te vi, num corredor escuro, dois apressados, dois atrasados.... desde a primeira vez... Ou desde a segunda, quando descobri que teríamos uma aula juntos e você sentou na minha frente e falávamos dos sonetos de Shakespeare.... Desde quando eu não sei, mas sei que não passou.

Cada vez que te vejo, fico feliz. Você me ilumina duma maneira irritante.... E me atinge duma maneira qualquer que não sei como evitar.

E aí, você vem, me abraçando, fala no meu ouvido, me puxa de levinho pelo braço, se aproxima. Caminhamos de mãos dadas, você carrega minha bolsa mesmo depois, quando a gente se afasta, se perde. E olha pra trás e me procura na multidão, me acha, me puxa, reclama. Eu nem ouvi, eu adoro.

Então me acompanha pelo meu caminho, me abraça um jeito muito seu, se despede e vai embora....

Eu páro e te acompanho com os olhos, mesmo que você sequer olhe pra trás.
Olho por nós dois, não ligo.

2 comentários:

Sunahara disse...

3 letras: U-A-U

seus últimos textos têm me arrancado interjeições

:)

Kitsune disse...

"Tudo em você me faz um bem amargo"
É daquelas passagens que você fica com raiva por não ter escrito antes.