Na gaveta empoeirada morrem fotografias. O esquecimento vai apagando as tintas, borrando os rostos. Lembrança e registro se perdem na idade. Tudo é calmamente sem vida. O tempo ali já não passava mais. Era passado.
Pequenos olhos curiosos observam a gaveta ao longe. No quartinho dos livros da avó tudo era mistério e promessa. Que teria naquela gaveta? Que tesouros? Que segredos?
Toda uma história proibida, um segredo intocado. Piratas e reis depostos, princesas a serem resgatadas, relíquias. Pérolas. Preciosidades.
- Sua mãe chegou pra te buscar.
E todo o mistério do mundo parou pra esperar, calado, num fundo de gaveta.
Um comentário:
Há uma porta no meu armário que não se abre há tempos. O vidro fumê não revela o que de bate pronto as memórias trazem à tona.
Na frente dessa porta, passam inovações, trabalhos, hobbies, metade do meu eu.
Por trás dela, ainda que manchada e velha, a outra metade continua intacta. Porque, na frente dela, posso perder tudo de mim. Por trás dela, nada de mim.
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