domingo, 22 de novembro de 2009

...cheguei...

Logo após o apito, uma voz pedia pra apertarem os cintos. Finalmente! Que cansaço! Os pés já estavam dormentes, já sentia dores nas pernas, no pescoço... Foram 10 horas... 10 horas, mas chegamos, ela pensava, chegamos.


Confere maquiagem, confere bolsa, frasqueira? Não, não trouxe nada, só a bolsa. A bolsa. Liga o celular, sorri. Olha pela janela, pra cá, pra lá. E a porta? Não abre! Abre logo, abre!... Abre...


Os segundos entre o pouso e a abertura da porta foram, como o clichê manda, longuíssimos. Foram verdadeiramente séculos. O frio do avião desapareceu... foi trocado por um calor sem fim, um calor de ansiedade, um calor de agito, de coração acelerado, de mãos trêmulas... Abriram a porta...


Agora os passageiros que não andam. Que raiva! Horas aqui dentro e ninguém quer sair, correndo?! Ela não escondia mais a impaciência, olhava de um lado pro outro, esticava o pescoço, queria ver algo além do ombro xadrez e alto na sua frente. Andavam.

Os passos da mocinha iam acelerados, equilibrando-se no salto. Lembrava que não tinha que estar de salto numa viagem assim, longa, mas que preferiu ficar bonita, queria parecer arrumada, realmente se preocupou em aparecer bonita depois de 10 horas de viagem, ainda que tivesse certeza de que 10 horas de viagem iam amassar a roupa, o cabelo, a cara.

Ficou numa fila, passaporte na mão. Esperou sua hora de responder perguntas. Hehe, que saudade desse sotaque, meu Deus!... É! Então, eu já estive aqui, é, já. É. Estou voltando, só. É, eu vou passar umas semanas. Volto, claro, volto pro Brasil, aham. Depois, ano que vem. É. Obrigada... Entrei. Não era tão nervoso entrar assim, era? Não, não era não.

Só faltava buscar a mala. Minha mala é verde. Eu gosto dessa mala, verde, sim sim, já viajei muito com ela, é. Não, não é essa. Nem esta, nem esta. Nossa, nem aquela, nem a outra. A mala não vinha. Passou uma mala vermelha, e a menina achou linda, linda de morrer a mala vermelha. Ainda vou comprar uma Mala vermelha, ela pensou. Lá vinha a sua mala. Esticou o braço, puxou, Ai que peso! Meu Deus! E tirou aquele chumbo da esteira.

Saiu puxando a mala por aí a fora. Saiu toda doida, correu até a porta e... Parou, arrumou o cabelo, puxou a camisa, estampou um sorrisão no Rosto e saiu.


Olhava rosto por rosto, procurava. Achou. Quase não sentiu a perna acelerando. Logo logo ela corria por um lado, ele por outro, rindo dela, de sua cara de menina, do sorriso que ela nem se preocupava em disfarçar. Uma linha de olhares ainda à espera separavam os dois. Era realmente enorme a fila de espectadores, mas, agora, tinha chegado ao fim.


Agora eles se olhavam. Inteiramente. Não havia ninguém entre os dois... Pela primeira vez em muito muito tempo, não havia nada entre eles. Nem olhares, nem distâncias, nada. Eram dois corações acelerados, dois sorrisos, duas saudades... ela correu. Abraçaram-se forte. "Cheguei, sim, estou aqui... cheguei."

Um comentário:

Eduardo Lara Resende disse...

Parabéns pelo desembarque e pelo reencontro. Narrativa que quase leva o leitor a 'empurrar' o ombro xadrez que está na frente para chegar logo ao final.
Abraço.