Ele abria a porta, entrava na casa silenciosamente escura. Não acendia a luz. Não precisava de luz. Conhecia cada canto da casa, cada móvel, quadro, porta retrato, tudo, conhecia. Caminhava no breu até o quarto. Deixava a mala num canto, perto do armário e tirava a roupa social mecanicamente. Só na hora de lavar o rosto na água gelada ele acendia a luz.
Gostava de se encarar, de ver no que se transformara. Não que tivesse orgulho disso ou que tenha realizado todos os planos, grandes feitos... Estava acostumado com o que tinha, precisava acostumar-se com o que tinha, com essa verdade. Não buscava nenhuma outra, nenhum sonho, nada além. Era ele, só.
A luz que vinha do banheiro iluminava parte do corredor e do quarto. Uma grande cama de casal desfeita esperava solitária por ele. Já sem toda a pompa do terno e gravata diário, ele se jogava na cama. Sem jornal, sem futebol, banho, jantar ou cigarro. Só ele, só, na cama.
Já gostava dessa penumbra do quarto... era mais confortável que a luz, menos assustadora que o breu em que costumava dormir quando jovem. "Ela que tinha mania de dormir assim, com a porta aberta, com meia luz". Sorriu triste. Lembrou-se do excesso de cobertas, das almofadas na cama, do perfume doce do creme de baunilha. Lembrou do cheiro de shampoo, dos cabelos úmidos no travesseiro, dos pés gelados. Lembrou-se do número da rádio na qual ela sempre sintonizava o radinho do seu lado da cabeceira enquanto ele, do seu lado, ajustava o despertador.
Esticou-se, cruzando a cama. Tateando, sentiu os travesseiros frios e macios, o móvel de madeira antiga... O rádio continuava lá. Empoeirado, é verdade, mas lá. Seus dedos procuravam o botão on/off. Ao primeiro ruído, pensou que deveria buscar a tal estação. Não precisava, era aquela mesma, das lembranças. Tocava um adágio chorado.

3 comentários:
Sem palavras.
Sua escrita tá num nível altíssimo.
=)
Isso é triste.
Você é uma das únicas pessoas que me causam arrepios ao ler.
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