terça-feira, 15 de junho de 2010

Sintonia

Ele abria a porta, entrava na casa silenciosamente escura. Não acendia a luz. Não precisava de luz. Conhecia cada canto da casa, cada móvel, quadro, porta retrato, tudo, conhecia. Caminhava no breu até o quarto. Deixava a mala num canto, perto do armário e tirava a roupa social mecanicamente. Só na hora de lavar o rosto na água gelada ele acendia a luz.

Gostava de se encarar, de ver no que se transformara. Não que tivesse orgulho disso ou que tenha realizado todos os planos, grandes feitos... Estava acostumado com o que tinha, precisava acostumar-se com o que tinha, com essa verdade. Não buscava nenhuma outra, nenhum sonho, nada além. Era ele, só.

A luz que vinha do banheiro iluminava parte do corredor e do quarto. Uma grande cama de casal desfeita esperava solitária por ele. Já sem toda a pompa do terno e gravata diário, ele se jogava na cama. Sem jornal, sem futebol, banho, jantar ou cigarro. Só ele, só, na cama.

Já gostava dessa penumbra do quarto... era mais confortável que a luz, menos assustadora que o breu em que costumava dormir quando jovem. "Ela que tinha mania de dormir assim, com a porta aberta, com meia luz". Sorriu triste. Lembrou-se do excesso de cobertas, das almofadas na cama, do perfume doce do creme de baunilha. Lembrou do cheiro de shampoo, dos cabelos úmidos no travesseiro, dos pés gelados. Lembrou-se do número da rádio na qual ela sempre sintonizava o radinho do seu lado da cabeceira enquanto ele, do seu lado, ajustava o despertador.

Esticou-se, cruzando a cama. Tateando, sentiu os travesseiros frios e macios, o móvel de madeira antiga... O rádio continuava lá. Empoeirado, é verdade, mas lá. Seus dedos procuravam o botão on/off. Ao primeiro ruído, pensou que deveria buscar a tal estação. Não precisava, era aquela mesma, das lembranças. Tocava um adágio chorado.
Ainda que não enxergasse muito na pouca claridade do quarto, fechou os olhos. Sorriu. Por um instante esqueceu que ela já não estava ali.

3 comentários:

Sunahara disse...

Sem palavras.

Sua escrita tá num nível altíssimo.

=)

Beta disse...

Isso é triste.

Artur Gelumbauskas disse...

Você é uma das únicas pessoas que me causam arrepios ao ler.