Vejo tuas batalhas de camarote. Assisto uma a uma tuas quase touradas, tuas corridas e curvas e aplaudo teus movimentos mesmo quando me olhas em desprezo. Tua fã, sim, tua torcida, sempre. Mas não mais tua.
De teu mesmo, só tens o amor que viveu por mim. Os resquícios, a raiva talvez... Já não sei. Não me pertencem mais estes capítulos. Não sou tua Dulcinea. Eu não acho que saberia ser mais nada que fosse teu. Sou minha agora, meu herói. Desculpe. Hoje quem me salva sou eu. Teu sonho não cabe em mim. Teu sonho não sou eu.
Não peço que sonhe diferente, entenda. Peço que ainda sonhe e sonhe muito. Só não sonhes comigo. Não sou eu o teu sonho. Talvez eu seja mais o pesadelo, o moinho de vento, o dragão que imaginas perigoso... Poluo tua imaginação e sabemos que tiro teu sono não mais de um jeito bom. Que pena, cavaleiro errante, que pena.
Segue teu rumo, Dom Quixote. Segue em teu poderoso cavalo, segue de espada e capacete... Segue com teu fraco Sancho Pança em um desprezível pangaré. Eles te amam de um jeito cego que eu jamais saberei amar. Vai ver por isso sou tão moinho... Por saber cegamente te amar, mas não te amar cegamente.
Meus olhos percebem, meu amor errante, que são só moinhos e que tua luta, por mais sangrenta que seja, é vã e vaidosa. Mas e daí? Não me proponho te julgar ou entender. Não me proponho coisa alguma. Vejo a loucura e me afasto. Não serei eu que, te vendo fora de si, me deixarei tragar por estes dragões que desenhas certo por linhas tortas.
Vá embora, meu caro. Leve teu espanhol, tua língua, teu falar. Vá embora, leve o violão, a luz avermelhada, o conhaque à meia noite. Vá embora de cavanhaque e cabelo solto. Vá e leve tuas leis, tuas regras, tua falsa liberdade angustiante. Vá. À pé, à cavalo, vá. Vá pra longe, um longe que eu jamais entenderei, mas vá. Vá e logo. Simples e livremente.... Vá. Siga livre, siga vaidoso, orgulhoso que só. Siga louco e lindo... Siga leve. Siga herói e bandido. Siga antagonista de si mesmo, siga voando e... tome cuidado com o vento.
Vento ardiloso que transforma o moinho em dragão...
Vento maléfico que transforma em perigo o que mal nunca te fez...
Vento que soprou pra sempre a chama da nossa vela... e me apagou da tua vida.
Moça das letras.

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