Mas no jardim, entre as outras, aquela florzinha sem-vergonha rodopiava sem parar, num ritmo contínuo, num balanço uníssono... Na sua coreografia delicada e breve a menina ia se distraindo "bem-me-quer, mal-me-quer", sem ligar prum talvez futuro que o joguinho poderia, quem sabe, prever. Ele era sim ou não, poucas palavras e todas as certezas e ela, bem, quem sabe, será?, não sei... suspiros.
E ele a observava impassível, quase sem perceber as gracinhas que a menina, numa falsa e treinada naturalidade de Lolita, realizava só e somente pra ele. Aos poucos a poeira que o vento levantava se misturava às notícias de um jornal de dois dias atrás que passava por ali e... tudo ia perdendo importância. Só ela, suas cores, seu perfume, seus amigos, sua dança prendiam a atenção. Já não era uma margarida entre muitas, não era. Já não era uma maria-sem-vergonha, dessas que nascem em qualquer lugar, era uma rosa, uma roseira, um jardim inteiro. Não era só uma flor que dançava. Agora, um mundo de cores e sons, um mundo cheio de sentidos que, em sua aspereza, ele havia esquecido completamente e que, assim, quase que por acaso, voltava a fazer sentido, voltava a existir...
Ele nem lembrava que as borboletas sabiam dançar.
2 comentários:
E enxergar, será que ele enxerga?
=*
Não eram as margaridas flores frágeis que não sabem se defender? ha, só falei isso pq me lembrei, não tem nada a ver.
Pois é... lindo texto, lindo demais...
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