Todo seu corpo se declarava, cantava o amor. Suas mãos brincavam com as dele, as pernas se esbarravam quase sem querer, o sorriso. Tudo deixava claro que algo maior estava pra acontecer naquela sala antiga, de uma casa escura, perdida no tempo.
Uma conversa disfarçava a grandiosidade daquele momento corriqueiro. Falavam só às vezes de música e de coisas óbvias, não tinham que ter assuntos, não tinham que escolher um tema. Estavam ali e isso era tudo no mundo. A pouca luz que ainda entrava pela fresta da janela só revelava algumas partes da cena. Os olhares perdidos e esquivos, os toques das mãos por trás do encosto do sofá, estes estavam cuidadosamente protegidos pelas sombras.
Ela falou de saudade, da falta que sentia dele, de como eram boa companhia, de como ficaria ali naquela sala fazendo nada pra sempre. Sua boca pequena e vermelha falava em versos doces sobre carinho, sobre amor.
"Amor?" ele perguntou num sorriso encabulado, "foi isso que você disse?". A cor do batom agora ia se espalhando pelo rosto envergonhado e respondia que sim, que fora amor sim, respondia que tinha chamado de amor e que chamaria de amor, de meu amor de novo e sempre porque é isso que ele era, pra ela...
O vermelho dos lábios, que agora tentavam se explicar, queria saltar, se pudesse, mundo afora declarando esse sentimento, essa paixão, tudo. Iria, então, tornar-se poesia e tocar os ouvidos apaixonados pra se esconder no fundo dos corações. Se pudesse, a cor apaixonada viraria tinta pras pinturas de jardins de roseiras, de lenços e lençóis, dos incêndios das paixões, dos vestidos das mulheres. E iria então valer ainda e muito mais que mil palavras. Iria colorir o sofá, a sala, o mundo, dum carmin paixão. O mundo todo seria de um vermelho apaixonado que só os amam muito sabem ver.
Mas ela somente sorriu e disse que sim, que chamava algumas pessoas assim, que ele não ligasse muito, que não era coisa de grande importância. E os lábios perderam o brilho, as mãos se soltaram, as sombras escureceram o batom, os rostos, a sala. Uma penumbra triste, mais preta que branca, envolvia o mundo que deixou de (vi)ver uma bela história de amor.
Do que que você está falando?!
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6 comentários:
Me arrepiou. Um dos melhores textos que li na vida, sabia? Parabéns, acabou de se tornar uma das minhas escritoras favoritas.
=**
NOOOOOOOOOOOSSA
Arrasou, caramba, esse foi incrível!
Prima prima, que lindo!
Impressionante a forma como você criou o clima... e o destruiu.
uau! mais uma vez, arrasou!!
Do início ao fim instiga-nos a continuar lendo...
Acho incrível a expansão da cor sobre o mundo, me fez sentir de fato o sangue correndo. E na quebra,um sopro gélido no rosto.
Vermelho é um dos seus textos que mais gosto.
=**
Nãããão!!! Pq a gnt faz isso com o mundo?
Tive arrepios aqui!
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