O sol entrando pelas frestas da persiana a acorda sem susto, sem pressa, preguiçosamente. Ela se levanta da cama, ainda enxugando os olhos do sono. Por sobre os ombros, vê o namorado jogado entre as cobertas. Gira o corpo sonolento, será que ele acordou? Seu rosto relaxado no travesseiro revela: ele dormia. Ignorava o sol, as 9 horas da manhã, a namorada que o observava num sorriso.
Tateando a mesa de cabeceira em silêncio, ela procurou os óculos. Lembrou-se da noite, de tê-los derrubado dentre umas outras coisas e da preguiça de esticar o braço até o chão para colocar tudo de volta no seu lugar. Pegou-os e os colocou no rosto. Deixou o resto das coisas lá. Pensou em preparar um café da manhã para ele, pensou em descer, comprar pão fresco e quentinho na padaria do outro lado da rua, mas preferiu jogar-se na poltrona, sentia uma mistura de preguiça e vontade de viver.
Observava o quarto bagunçado. Roupas no chão, na cadeira, jogadas. Procurou por seus sapatos, um deles estava visível, pisando na camisa social do namorado. Não se importara em saber onde estaria o outro pé, no que estaria pisando, onde fora... Não era importante, realmente.
Sabia que aquele era um momento que não devia ser interrompido. Um daqueles momentos tediosos e cotidianos dos fins de semana, um daqueles que, aparentemente sem importância, fariam muita falta se, um dia, deixassem de acontecer. Queria curtir, memorizar aquela cena... tinha muito medo de esquecer.
Olhou apaixonada para a mão desenhada dele. E ela distraía-se reconhecendo cada linha, cada centímetro de mão, de pele exposta. O lençol que o envolvia pela cintura revelava o rosto, os braços, um pouco das costas e um dos pés. Era o suficiente para que ela reconhecesse todo ele. O rosto, as mãos, o pé, a tatuagem que começava em um dos ombros e descia até quase o fim das costas, tudo memorizado, conhecido, tudo.
Ela adorava aquela tatuagem, adorava o desenho, as cores, adorava tudo. Adorava a barba nunca feita, a cicatriz no peito, o cheiro leve de cigarro de todas as suas roupas, o sapato desamarrado. Adorava sua mania de pausar as frases em momentos estranhos e pouco....dramáticos, adorava. E adorava quando ele ia trabalhar e vestia a roupa social, repetindo o quanto odiava aqueles botões todos e reclamando daquela gravata que ela endireitava no colarinho. Ele realmente não sabe dar o nó da gravata, bobo. Sorriu. Adorava essas repetições, as manias, adorava seu cotidiano com ele. Adorava saber que na quarta gaveta da sua cômoda estavam umas roupas dele. Adorava como ele sempre esquecia alguma coisa em sua casa, um maço, uma caneta, um casaco, e gostava mais ainda de saber que cada objeto esquecido era a garantia dum reencontro que deixaria novas memórias e novos objetos esquecidos, como num ciclo. As lembranças fizeram com que o sorriso tímido se tornasse uma risada doce.
Olhou novamente para o rosto dele. Estava na mesma posição, mas agora a encarava, de volta. Sentiu-se tímida, quase envergonhada - ainda que não houvesse de fato motivo pra isso. Ele sorria com o cantinho da boca e com o escuro dos olhos enquanto se espreguiçava:
- Bom dia...
Do que que você está falando?!
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