Na adolescência, eram revistas de jogos, de curiosidades que ocupavam o espaço entre porta, cama e mesa do computador. Na época de provas, os livros. A maior parte do tempo, no entanto, se escondia no computador. Jogava todos os jogos possíveis, de guerra, de raciocínio, de simulação. Vagava na internet. Às vezes, grudava num livro e passava, então, horas na cama lendo, relendo. Se estivesse sozinho, certamente não lembraria de almoçar... Passava horas no quarto, distraído, viajando... Justamente pra não sentir o tempo passar.
Ninguém entendia. Diziam que ele perdia tempo, que o tempo estava passando... E ele realmente esperava o tempo passar. Sem saber, esperava a hora da vida acontecer. E a vida ia passando lenta e preguiçosamente por ele. Não era como se ele não percebesse, ele percebia, sabia bem e tinha medo. Tinha muito medo de um dia perceber que a vida tinha passado e que ele não tinha feito nada, não tinha conquistado nada, tinha perdido os sonhos.
Tinha medo de planejar e dar errado... e um pouco de preguiça, talvez. Tinha medo de não fazer dar certo. Era mais confortável manter-se na caverna de sempre. Por anos tinha dado certo, ainda daria certo, nisso ele gostava de acreditar, nada precisaria mudar, não, não.
Tinha medo de acordar e perceber ter 30 anos. Tinha medo de descobrir que aquela menina, do carnaval, era o amor de sua vida, medo de pensar no que teria acontecido se tivesse dito sim, se tivesse ligado. Tinha medo de acordar num trabalho que não gostasse, mas do qual não pudesse sair mais, tinha medo das contas, da responsabilidade. Tinha medo do tempo.
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