domingo, 19 de abril de 2009

Ego, o esquilo que não tinha nome

No meio da floresta havia uma montanha. Na montanha, uma caverna comprida, úmida e escura que ia dar em lugar nenhum. Era só um caminho pro escuro, prum lugar onde nada mais se via, pro breu.
Um esquilo curioso que não tinha nome entrou na caverna ao fugir dos perigos da floresta à noite, do pio das corujas, do vôo rasteiro dos morcegos, do farfalhar dos arbustos.
Lá dentro, o escuro era mais escuro e os barulhos ecoavam, multiplicando-se e multiplicando-se ad eternum. Ele sentiu ainda mais medo e se encolheu, num canto úmido, cobrindo a cabeça com a cauda peluda.
Pela manhã a luz do sol invadia a caverna. Do lado de fora, tudo parecia um borrão muito claro e branco onde quase nada se via. O esquilinho piscou o olho várias vezes até conseguir descobrir o que acontecia ali.
Ele estava numa caverna de pedra fria e úmida, mas disso ele lembrava, da noite anterior. Lembrava também do medo que sentiu, e do frio, e dos barulhos. Com o sol, nada parecia tão assustador... os filetes de água que desciam pelas paredes da caverna refletiam o sol, eram agora filetes brilhosos... as pedras tinham diferentes tons de cinza, de verde musgo. Teias de aranha davam à caverna um certo charme, caindo como véus das estalactites. Tudo parecia em seu devido lugar.
O esquilinho sem nome gostou dali, sentiu ter descoberto num novo lugar só dele. Quis sair da caverna, ir contar pros outros esquilos de seu novo recanto, tão mágico, tão seu.
Saiu.
Contou. E contou e contou. E falou da noite segura que teve na caverna já que ninguém a conhecia, só ele, já que era úmida e parecia sombria.
A noite chegou e ele foi da floresta escura pro breu de sua caverna.
Chegando lá, não era cheiro de água e terra molhada que sentia. Sentia cheiro de esquilo, barulho de esquilo, pisava em esquilos até achar um canto pra se acomodar e tentar dormir. Havia outros esquilos ali.
O esquilo sem nome passou aquela noite em claro. Ele bem que podia ser só mais um esquilo durante todo o dia, podia não ter nome, podia ser só mais um outro esquilo... Mas ele já tinha descoberto o que era ser especial, por uma noite ele descobriu o que era ser alguém, indivíduo, ele mesmo... e ter um canto dele.
Não sabia mais ser só mais um daqueles esquilo sem nome.

2 comentários:

Artur Gelumbauskas disse...

E não é só o Ego que é assim... bonito texto, moça.

Pedro disse...

Ego é
um esquilo
fanfarrão e
solitário

:)

adorei o texto
bjo