segunda-feira, 27 de abril de 2009

Silêncio

Começa o piano, o palco vazio ganha cor... Era a bailarina entrando no palco. Na ponta dos pés, meio andava, meio flutuava. Roupa leve, que balançava com seus passinhos pequenos pra cá, pra lá. Mãos delicadas, brancas, giravam pelo ar. Meio realidade, meio sonho... Um sorriso leve e constante no rosto.

Cada nota guiava seu corpo fino: como pluma rodopiava, no ritmo. De um lado pro outro, colorindo, alegrando, povoando sonhos de menina.

Acaba a coreografia. Acaba todo o espetáculo. Luz apagada, nuvem vazia, agradecimentos, aplausos, flores, sorrisos, elogios, sorrisos... coxias cheias.... platéia vazia... cadeiras vazias. Camarins... vazios. Vazio.

Aí, sim... A menina despe todo o glamour, caem as purpurinas, os paetês, a personagem. Ficam suor, esparadrapos, cansaço. Buquês prum lado, redinha, grampos pros outros... Sai, sapatilha, sai meia calça... A maquiagem borrada, demaquilada. Um corpo franzino e exausto se joga numa cadeira qualquer.

No espelho a bailarina finalmente se vê. Sem maquiagem, sem fantasia, sem flores, sem platéia. Silêncio. Só ela e ela. Não mais menina, nem bailarina, uma mulher, só... só ela.

Pega a chave de casa, joga as fantasias, maquiagens, enfeites... tudo numa bolsa. Sai.

Teatro pra trás, platéia, dança, aplausos pra trás, fantasias pra trás. Apenas uma mulher cansada, com frio... caminhando pra casa, pro seu silêncio. Para a paz.




Porque nem sempre é da maquiagem que surgem os belos rostos, os sorrisos e aplausos. E nem sempre por maior o espetáculo, por melhor o show, temos a platéia - ou os olhares - desejados.

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